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Terça-feira, 27 de Maio de 2008

Clareza nos objetivos



O clima estava tenso desde a última reunião da equipe do projeto do Joãozinho, o gerente técnico. Ele havia percebido que a equipe estava cumprindo as suas tarefas, mas todos os seus três colegas estavam aparentemente bem insatisfeitos com o projeto. Joãozinho achou melhor conversar com o Ricardão, o gerente comunicador, para obter alguma idéia do que poderia ser.

- Ricardão! Me ajude! Me ajude!

Ricardão estava finalizando um email em que parabenizava sua equipe pelo excelente trabalho na apresentação do sistema ao cliente. Ficou paralisado quando viu Joãozinho entrando porta adentro do seu escritório.

- O que houve, meu amigo?
- É a minha equipe. Não sei o que faço. Sério. Estou perdido.
- Sua equipe?! O que poderia haver de errado com a sua equipe? Eles parecem fazer um bom trabalho.
- Eu sei, mas por algum motivo eles não estão satisfeitos.

Ricardão se levantou da sua confortável cadeira, pediu para que Joãozinho mostrasse a área de trabalho da equipe. Eles olharam pela janela, tentando não serem vistos.

- Olhe lá. Eles estão fazendo suas tarefas, não são dispersivos, não sei o que é!
- Não sabe mesmo?
- Não!
- Poxa, Joãozinho. Olhe para a sua equipe de novo.
- O que tem?! - Joãozinho já estava impaciente com esse suspense.
- Meu amigo, eu olho para a sua bela equipe e vejo três pessoas desmotivadas.

Joãozinho parou por um instante.

- Desmotivadas? Pessoas desmotivadas não fazem um projeto andar como está andando.
- Nem sempre, meu amigo.
- Mas eles são uma equipe! Trabalham juntos e nunca reclamaram.
- Nunca? Tem certeza?
- Nunca me falaram nada.
- Oras, a gente sabe que não é preciso falar para demonstrar algum desconforto, não é? Não vou precisar repetir que a comunicação tem na fala e nas palavras só 30% da mensagem passada.

Ricardão levou seu amigo para a sua sala e começou a falar algo que havia lido em um livro.

- Joãozinho, você tem certeza que eles sabem o que estão fazendo? Para que estão fazendo?
- Sim, esse é um projeto que deve implantar um sistema de testes. Eles sabem disso.
- Mas eles sabem como estão sendo avaliados por isso? Eu digo, você tem certeza de que eles estão cientes?

Joãozinho pensou por alguns instantes. Lembrou das reuniões que tiveram. E percebeu que realmente não havia deixado claro quais eram os objetivos do projeto. Joãozinho então resmungou:

- É verdade... tu tens razão.
- Claro, meu amigo. Vou te dizer uma coisa: não existe NADA pior para uma equipe do que fazer alguma atividade sem saber o motivo ou o objetivo daquilo. E pior ainda, sem saber se aquilo será usado ou mesmo aproveitado na empresa.
- Confesso que tu tens razão.
- Imagina o que se passa na cabeça deles, agora: "Que droga, não aguento mais desenvolver esse sistema sem fim. Toda semana novas mudanças... e ninguém parece dar a mínima para o que eu faço". Tu te sentirias motivado assim?
- Óbvio que não. Eu confesso que comecei o projeto na corrida e não sentei e conversei sobre os objetivos do projeto, como ele seria utilizado, etc.
- Isso mesmo! Veja, as pessoas estão praticamente cegas. E não existe nada pior do que isso para um funcionário...
- Por quê?
- Ora, porque com isso ele começa a criar expectativas falsas. Começam a pessoalmente achar que estão sendo sub-valorizados, que estão fazendo tarefas ordinárias, e a bola de neve vai crescendo. Até o ponto que é capaz de alguém pedir demissão por achar que seria demitido.
- Não... eles não chegariam a tanto.
- Claro que chegariam, Joãozinho! São seres humanos! Eles tem expectativas e querem ter uma perspectiva. Querem saber porque fazem aquilo. Experimenta chegar na próxima reunião e fazer uma reunião clara com eles sobre os objetivos do projeto, as perspectivas, etc. Mas te aconselho a antes ouvir o que eles tem a dizer.
- Farei isso.

Passada uma semana, Ricardão casualmente passa na frente da sala de reuniões e percebe a equipe de Joãozinho motivada e dedicada ao projeto. Ele já imagina o motivo, mas quer saber do próprio o que ele fez.

- Simples - diz, Joãozinho - eu fiz a reunião e primeiro falei estava notando que eles estavam desmotivados e queria que eles desabafassem.
- E desabafaram?
- Lógico que não. Eu tive que deixá-los a vontade, comecei a citar: "Minha liderança está boa? A comunicação flui legal?" até que um quebrasse o gelo e falasse. E realmente, TODOS reclamaram do fato de não saberem o motivo daquele projeto. Se sentiam mesmo escanteados... sem rumo.
- E ai?
- Então eu expliquei o projeto, mostrei como ele seria importante para a empresa, falei que nossos chefes tinham grandes expectativas e que se fizéssemos um ótimo trabalho, faria o possível para que todos fossem reconhecidos.
- E pelo visto mudou da água pro vinho.
- Ah, e como! É impressionante como as soluções de problemas deste tipo são tão simples. E geralmente envolve comunicação.

O fato é que Joãozinho conseguiu entregar o projeto. A produtividade não teve significativa mudança (já era relativamente alta), mas a energia e a qualidade do ambiente de trabalho mudaram demais. Todos foram elogiados pelo projeto. Joãozinho acabou percebendo que uma das principais consequências da falta na comunicação é a criação das falsas expectativas. E prometeu a si mesmo que a partir daquele dia, procuraria nunca mais deixar margem para que isso ocorresse novamente.

Quinta-feira, 22 de Maio de 2008

O happy-hour



- Quase seis horas, pessoal! Qual vai ser o barzinho da vez?

Eram quinze para as seis, de uma sexta-feira na empresa de Ricardão e Joãozinho. Como em qualquer companhia, a contagem regressiva da última meia-hora de trabalho era feita em coro pelos funcionários. A noite agradável que se aproximava fazia com que a esticada para um barzinho fosse apenas uma conseqüência natural. O mais animado, como sempre, era o Hilário. Programador razoável, era um funcionário que era mantido mais pela alegria que trazia ao ambiente, do que pela sua produtividade (mediana).

- Eu voto pelo "Bacon'n'Eggs" de novo! ... Não querendo influenciar a opinião dos demais... - piscou o olho para seu colega ao lado.

Hilário cativava seus colegas. E logicamente que o local seria o "Bacon'n'Eggs", pois a opinião dele soava quase como uma ordem aos ouvidos dos outros. Todos estavam animados e agora contando os segundos para sairem. Para disfarçar, naquela tentativa ineficiente de se passar por trabalho, todos tratavam dos últimos detalhes via Messenger, num constante "alt+tab" entre planilhas e janelas de chat.

Ricardão, o gerente comunicativo, não havia sido chamado para este happy-hour. Ele observava tudo aquilo de longe e ficou incomodado. Sendo um líder que todos diziam apreciar, aquela animação e aquele apego da equipe pelo Hilário lhe fez sentir um pouco de inveja. "Por que eu, como líder, fiquei de fora?", pensou.

Entrando e saindo da sala de desenvolvimento, pelo menos 2 vezes nos últimos dez minutos na esperança de ser "lembrado", Ricardão notou que ninguém sequer havia cogitado a hipótese de convidá-lo. Joãozinho, o gerente técnico, o encontrou na passagem e logo notou a preocupação estampada no seu rosto.

- Problemas, meu amigo?
- Não... bem, sim. Digo, não.
- Ora, vamos lá, eu posso não ser um mestre em ler as pessoas como você, mas visivelmente você está incomodado. Me conte.

Caminharam até a sala do Ricardão e lá ambos se sentaram.

- Um happy-hour com a equipe, e eu não fui convidado.
- E... ?
- Como assim? Passamos uma semana longa, eu e a equipe. Foi um dos projetos mais divertidos e produtivos que tivemos. Eu esperava ser convidado para esse happy-hour!

Ricardão estava visivelmente abatido. Joãozinho nunca havia visto seu colega em tamanha frustração. Como lider comunicativo, Ricardão se sentia muito à vontade com suas equipes, pois estava sempre junto a elas, atuante. Aquele "não-convite" era uma faca nas suas costas. Joãozinho lançou uma pergunta:

- Ricardão, te entendo. Sei que tu se sente parte da equipe e que isso parece uma afronta contra sua autoridade. Sei que tu deves estar se questionando se eles realmente gostam de ti. Eu te pergunto: quantas vezes tu mesmo organizou alguma festa para eles?
- Ora, eu faço isso toda vez que finalizamos algum projeto. Ou mesmo quando fazemos algumas reuniões longas, procuro animar o local com comes e bebes.
- E nessas vezes, alguma vez vocês conversaram de assuntos sem ser trabalho?
- Bem, nas festas costumamos conversar. Mas lógico que é tudo um tanto superficial.
- Pois é, infelizmente temos que admitir que nós líderes somos superficiais com nossas equipes, por mais que tentemos ser profundos.
- Explique, Joãozinho. Não entendi.
- Eu sou um cara técnico e a tua presença me faz muito bem não só pelo lado pessoal mas como pelo lado profissional. Graças a ti, minha comunicação melhorou muito...

Joãozinho notou que os olhos de Ricardão fitavam pela janela da sua sala os funcionários saindo animados para o Happy-hour. Abanavam para os gerentes com animação, desejando um bom final de semana. Mas nenhum sinal de convite. Ricardão acenou constrangido, e perdeu suas últimas esperanças.

- Viu, só? Como posso ser um líder se minha equipe não me respeita ou não gosta da minha companhia?
- Ricardão, calma. Deixa eu continuar. Pelo visto tu estavas mais preocupado com o convite do que com o que eu iria te falar. Como eu disse, eu sou bastante técnico, sim. Mas aprendi muito contigo e consegui observar algumas atitudes suas neste projeto.
- E qual o veredicto, juiz? - Ricardão estava já impaciente.
- O veredicto é que eu jamais vi um líder tão dedicado a uma equipe, nessa empresa. Você comprou material para a equipe desenvolver o projeto do próprio bolso! Organizou reuniões com os chefes e clientes onde explicitou que a equipe era competente e demonstrou seu orgulho por liderá-los. Ricardão, tu desobstruiu todos os obstáculos que a equipe poderia ter. E ainda os tornou reconhecidos perante nossos chefes! Foste um líder perfeito!!
- Sim... e tudo isso para ...
- Calma! Como eu disse, nós somos superficiais. Note que tudo o que fizeste envolveu o trabalho. Por mais que tu tenhas conversado com eles, durante o projeto, duvido que foi algo pessoal e profundo. Por acaso, tu sabias que a mãe do Hilário estava no hospital durante o projeto?
- Nossa! Não sabia mesmo.
- Pois é, eu soube pelo chefe. Ele não quis lhe falar pois notou que o Hilário abstraiu bastante a situação. Mas veja como foste superficial. E isso não é uma crítica! Absolutamente. Eu realmente não consigo ver um chefe e um funcionário mantendo uma relação de amizade.
- Mas isso vai contra o que eu penso!!
- Exato, mas pense novamente. Se o Hilário fizesse algo de errado, de muito grave para a empresa, qual seria a sua situação? Se ele falasse mal dos chefes no happy-hour, qual seria sua reação?
- Hmmmm... eu gosto muito dele. Confesso que a amizade faria eu pôr "panos quentes" na situação.
- Pegaste o ponto-chave. Fazendo isso, tu achas que seria bom para a empresa? Tu não estarias sendo "cumplice"?
- Não concordo totalmente, mas acho que tu tens razão em parte.

Ricardão começou a entender que a liderança pela amizade, normalmente é um tiro no escuro. Os funcionários tendem a confundir o lado profissional com o pessoal nas empresas, tendo atitudes impensadas e indesejadas, principalmente os mais novos. Os mais velhos, em contrapartida, podem achar nisso algo que passe insegurança. Funcionários mais irresponsáveis, tendem a usar essa amizade para seu próprio benefício.

- Ricardão, estamos numa posição de chefes. Nós nunca vamos ser unanimidade, pois somos o "centro das atenções", no mínimo para nossos subordinados. Precisamos entender, e eu sei o como é difícil, que a amizade entre chefes e subordinados pode existir, mas deve ser tão clara quanto os limites que regem o lado pessoal do profissional.
- Sabe que eu estou te dando razão agora? Confesso que indo nesse happy-hour, um evento informal em que a equipe conversará menos sobre trabalho e mais sobre o lado pessoal, eu poderia até inibí-los... o que tornaria o happy-hour até numa extra-hour de trabalho.
- É, meu amigo. Os funcionários, por mais ligação que tenham com os chefes, sempre serão mais unidos. Mas tu podes ter certeza que eles te apreciam muito. Isso é visto no dia-a-dia. O simples "bom dia" já demonstra no rosto deles que eles estão felizes ao te ver. Eles sabem, de fato, que você está os auxiliando a crescerem na empresa.

Ricardão começou a compreender que Joãozinho, com todo seu foco técnico e pragmático, conseguiu ler algo que ele não havia percebido até então. Entender que a amizade profissional e a amizade pessoal são coisas realmente diferentes. Mesmo com o Joãozinho, amigo e colega dos tempos da escola, ele não tinha uma relação totalmente profunda. Não sabia coisas da vida dele, mas realmente isso nunca evitou que existisse total confiança entre os dois.

- Aliás, amigo. Te convido para um jogo de tênis. Deixa eles beberem. Vamos nós tirar o stress do corpo, pois foi uma semana dura.
- Não sabia que tu jogava tênis, Joãozinho!
- Agora sabes. Vamos?
- Lógico.

Enquanto saiam para o estacionamento, Joãozinho fez uma revelação surpreendente:

- Ricardão, o Hilário te colocou um apelido, sabias?
- Como assim?! Mas isso é uma total falta de respeito.
- Ele costuma te chamar de "O Cara", com 'c' maiúsculo.
- Poxa...

Joãozinho aproveitou o dia de emoções fortes do Ricardão, e aplicou um triplo 6x2 no seu colega. Enquanto isso, Hilário contava histórias do projeto e como "O Cara" resolveu problemas inerentes e defendeu a equipe na frente dos clientes e dos chefes. Aquela sexta-feira estava acabando e deixava muitas lições para todos eles. A correta dosagem de amizade entre equipe e seu chefe tornava o ambiente sadio na empresa. E era isso, afinal, o que realmente interessava.

Segunda-feira, 19 de Maio de 2008

A volta de Ricardão e Joãozinho



Ricardão e Joãozinho eram dois gerentes de projeto na empresa em que atuavam. Eram colegas de anos, desde a epoca do colégio.

Tinham filosofias diferentes de trabalho, o que sempre fez com que o Ricardão e o Joãozinho tivessem uma percepção totalmente diferente por parte de seus chefes e subordinados. Joãozinho, era extremamente técnico, mas pouco comunicativo. Adorava ficar trancado na sua sala fazendo planos, analisando riscos, enviando emails. Ricardão, ao contrário, quase nunca estava na sua cadeira. Andava de um lado para o outro com a equipe, ria com eles, cobrava quando tinha que cobrar, e ainda sobrava tempo para ele fazer outras coisas (como flertar com a assistente do diretor de RH).

Ricardão e Joãozinho almoçavam juntos e num destes almoços, Joãozinho perguntou ao Ricardão qual era a fórmula do sucesso dele. Por que os projetos dele davam sempre certo e os seus quase sempre ficavam à deriva, com um sucesso apenas "parcial". Ricardão não perdeu tempo:

- Antes de mais nada, Joãozinho, quero que tu me digas quantas vezes tu conversou com sua equipe no último mês.
- Olha, tivemos duas reuniões durante o mês, onde ficamos 3 horas debatendo o que deveríamos fazer. Saímos de lá com prazos definidos, mas não fiquei satisfeito pois meu ponto de vista prevaleceu, sem que eles contestassem.
- E por que tu achas que eles não protestaram?
- Olha, eles falaram tantas bobagens que eu tive que me impôr e provar como eles precisavam usar os riscos, o escopo, o prazo e o custo para chegar a uma conclusão.

Ricardão ajeitou a gravata, tomou um gole de sua Coca-cola Zero e falou:

- Joãozinho, você acha que trabalha em equipe ou a equipe trabalha para você?
- Como assim?
- Você é o gerente de projetos, cara! Tu realmente queres que a tua equipe saibas de riscos, custos e afins?
- Deveriam saber...
- Deveriam, sim! Mas quantas vezes tu apresentou isso para eles, de uma forma clara e sucinta?
- Não entendi!
- Fala sério: pensa que eles já tem preocupações técnicas muito grandes, assim como tu tens as preocupações com prazos, riscos, custos, etc. Porém, eu te garanto que eles sabem muito mais do que acontece no dia-a-dia do projeto do que tu.
- Ahh, isso eu duvido.
- Então vou te fazer uma simples pergunta e quero que tu me responda sinceramente.
- Ok.

Joãozinho se acomodou na cadeira, esperando as perguntas. Nada do que o Ricardão poderia perguntar, o Joãozinho não saberia responder. Ricardão jamais leu o PMBoK, não sabe nem ao certo o conceito de "projeto". Ele, alias, odeia ler. O que ele poderia saber que que o Joãozinho não saberia?

- Joãozinho... qual o nome dos cinco integrantes da tua equipe, os quais tu trabalha há 6 meses neste novo projeto?

Silêncio. Joãozinho engasgou e pronunciou alguns nomes... acertou um, e os demais ele realmente não soube responder.

- Está vendo, meu amigo? Você pode ser extremamente técnico, saber muito mais do que eu, sem dúvida. Mas tu já percebeu que tu não dedica quase nada do teu tempo para tua equipe? Tu quase nunca está disponível? Tu quase nunca conversa na fonte com eles? Será que essa tua idéia de que "eles estão sempre errados" é porque tu não sabe o que acontece no dia-a-dia dos seus projetos? E se eles estiverem certos?
- Bem... nunca havia pensado por essa forma.

Ricardão então resolveu propôr ao Joãozinho um desafio. Que durante uma semana, ele seguisse a seguinte rotina: chegasse no escritório, e por 1 hora ele ficaria no seu computador resolvendo seus problemas com planos, prazos, custos, e afins. Então ele passaria o restante do tempo junto à equipe, se comunicando, conversando e mesmo batendo papo. Joãozinho concordou, apesar de duvidar do resultado.

Uma semana passou.

Ricardão convidou Joãozinho para almoçar.

- Meu amigo, você deixou aquela sua sala muito vazia! Aguentou o tranco? Ela não ficou com saudades de você?
- Ha ha ha... de fato, fiz o que tu pediu.
- E... ?
- Bem, tenho que dar o braço a torcer. Eu tive uma visão completamente diferente do que estava acostumado. Percebi quantos problemas minha equipe tinha. Coisas que eu nem imaginava e que eles me disseram que não se sentiam à vontade de levantar nas reuniões, pois eu não dava abertura. Você acredita que eles trabalhavam com versões "trial" do sistema? Ou então que usavam um alicate como chave de fenda? Não, a pior eu não te contei... eles estavam com dificuldades imensas na definição do documento (sabe como é técnico escrevendo né?). Confesso que eu não parei um minuto!
- Excelente, Joãozinho. Tu aprendeu agora porque a maioria dos projetos falham: a falta de comunicação.
- Eu sei... quando aprendi isso, me pareceu algo tão teórico. Eu imaginava "Ah, é só fazer uma matriz de responsabilidades e todos irão seguí-las". Mas notei que as coisas não são bem assim.
- Exatamente. Eu não sei ao certo o que é uma matriz de atividades...
- Responsabilidades.
- Isso! Mas te confesso que delego todas as coisas técnicas para meus subordinados e procuro sempre mantê-los motivados e satisfeitos com o que fazem. Posso não saber compilar um código, mas te garanto que irei me esforçar para auxiliá-los a resolver o problema.

Joãozinho havia aprendido uma lição importantíssima. A comunicação é a alma de um projeto. Não se dedicar a ela, significa ser um anti-lider. Para liderar, precisamos saber do que nossos funcionários precisam. E romper todas as barreiras para que eles trabalhem satisfeitos e sem qualquer problema. Joãozinho completou:

- E o melhor! Agora não só sei o nome dos meus funcionários, como trato todos pelos seus devidos nomes. Que mudança isso traz!



Na saída do almoço, Nádia, a assistente loira e maravilhosa do diretor passou pelos dois. Ricardão abriu um sorriso.

- Nádia, minha querida. Tudo bem contigo?
- Olá Ricardão!! Está tudo ótimo. Obrigado pelo email que me mandaste hoje, fiquei muito feliz!
- Que isso, minha garota. O seu sorriso é meu combustível até o fim do dia.
- Obrigada! Ah, Joãozinho. À propósito, respondendo ao seu email, eu aceito ir ao cinema. Obrigada pelo convite!

Joãozinho acenou e agradeceu. Enquanto ambos admiravam aquela simpática e linda assistente andar em câmera lenta e com os cabelos ao vento (como naqueles clichês de filmes), Ricardão virou-se para o Joãozinho:

- Mas que diabos foi isso?!
- Ora, meu amigo. Você é um ótimo comunicador! Mas precisa ter uma meta e um deadline para cumprir. Eu apenas segui meu instinto prático.
- Joãozinho... se não fossemos amigos, eu te afogava neste copo de Coca-cola Zero. Mas me diga mais sobre metas e deadlines...

E ambos sairam conversando animadamente. A ligação entre eles era forte, seus inconscientes sabiam que um completava o outro e que muitas lições ainda viriam por vir, por ambas as partes.

Nádia e Joãozinho tiveram uma noite sensacional. Mas este não é o foco da nossa história, certo? ;)

Quinta-feira, 6 de Dezembro de 2007

Joãozinho x Ricardão no mundo empresarial

O assunto rendeu! hehe

Reflexões pessoais, concordâncias, discordâncias... mas o fato é que é um assunto realmente polêmico a questão da "cultura pelo esforço".

Agora façamos outra analogia:

Joãozinho, o estudioso, é daqueles rapazes inteligentes que tem poucos, mas valorizados amigos. Tímido, não namorou na adolescência inteira. Dizia que era melhor ter três BONS amigos do que quinze amigos "superficiais".

Ricardão não. Era o xodó da turma. Amigo das gurias e dos guris, gostava de aprontar sempre que podia. Não era do tipo que batia em todo mundo, muito pelo contrário. Apenas não tinha a aptidão pelo estudo. Ao contrário de Joãozinho, dizia que gostava de ter vários amigos.

Ambos cresceram. Joãozinho se mostrou um profissional capaz. Vai fundo no que gosta de fazer (se formou cientista da computação) e é bastante eficiente no que faz. Mas, por motivos que ele não entende, é sempre relegado quanto à uma promoção.

Já Ricardão se tornou um importante executivo de uma empresa de advocacia. Não é lá muito de estudar (manteve este hábito), mas ainda assim toma suas decisões (a grande maioria acertada) na base do seu conhecimento empírico.

Por que isso aconteceu?

Ora, pelo simples fato que Joãozinho não desenvolveu duas das ferramentas mais importantes em uma pessoa bem sucedida: carisma e a comunicação.

Os Ricardões possivelmente manterão contato com seus quinze amigos. E conhecerão mais quinze amigos e assim será sempre, de forma exponencial. E com isso, ele fará sua network de contatos.

Muitos teóricos dizem que, hoje em dia, não basta ser bom naquilo que se faz. É preciso ter o famoso Q.I. (quem indica). Mas, pensando bem, é preciso mesmo ser teórico para ver isso acontecer? Aposto que você, que está lendo este post, já vivenciou uma situação assim. Um bom funcionário sendo preterido por outro que você não considera bom. Tenha a certeza que este bom funcionário não conhecia a pessoa certa.

Eu fui muito do Joãozinho quando pequeno. Tive poucos amigos (os quais eu cultivo até hoje). Mas nem tudo está perdido. Dia 15 terei minha festa de 10 anos do colégio. Pretendo reaver contato com a maioria dos colegas (também não vou sair distribuindo cartões pra todos né? hehe). Essa é uma grande maneira de começar o seu network de contatos.

A grande maioria da geração pré-internet foi criada de uma forma que está totalmente ultrapassada nos dias de hoje... onde a comunicação quase nunca era trabalhada corretamente. Os comunicativos eram tidos como os "Ricardões". E quem aqui nunca teve raiva/inveja/ódio de algum colega "Ricardão"?

Abraços!

A cultura do esforço

Li um trecho no livro "Obrigado pela informação que você não me deu" que me fez pensar e reavaliar algumas atitudes não apenas minhas, mas das pessoas da minha volta, no meu trabalho.

Para ilustrar isso, vou contextualizar em uma fábula (baixou o Max Gehringer! hehe).

Anos 80.

Joãozinho era um rapaz muito estudioso no colégio. Daqueles que tirava 10 sempre. Mesmo quando não merecia. Ele dedicava pelo menos duas horas do seu precioso dia de criança para estudar, além das outra cinco horas de colégio que ele tinha.

Ricardão era o oposto de seu colega Joãozinho. Passava, é verdade, mas quase sempre em recuperação e com a nota mínima. Ia ao colégio (quando ia) e dedicava no máximo quinze minutos por semana para estudar.

Se o professor de história dava um trabalho para pesquisar sobre a Revolução Farroupilha, Joãozinho adorava pedir aos seus pais para levá-lo ao museu, gostava de ir até a biblioteca e, se conseguisse convencer, pedir para até um centro de tradições gaúchas para ouvir as histórias da revolução daqueles que tinham ancestrais envolvidos nas batalhas. Já o Ricardão possivelmente copiava metade do trabalho de um e inventava a outra metade. E entregava, meia-boca, mas entregava.

Se o professor de matemática dava um trabalho extenso sobre progressões aritméticas, Joãozinho varava as noites até resolver todas as questões. Não queria ir para a aula, se não tivesse finalizado o trabalho. Já o Ricardão, chutava os resultados daquelas questões que considerava mais complicada.

Quem vocês acham que possivelmente terá uma carreira mais bem sucedida, na era da informação em que se tornarão empregados?

É uma resposta discutível, mas eu posso garantir que o Ricardão teria mais sucesso.

Por quê?

Pensemos em nós, que estudamos na era pré-internet (quando eu sai do 3º ano a internet engatinhava!) o quanto era difícil obter essas informações de trabalhos. Ir para bibliotecas, pesquisar em enciclopédias, almanaques, etc. Quantas vezes nós não nos sentíamos necessitados em sermos recompensados pelo esforço que tivemos? E quantas vezes não fomos, de fato, recompensados por isso? Ou ninguém nunca ouvi de seu professor algo do tipo "pelo seu esforço, te darei uma nota 10!"?

De certa forma, o Joãozinho foi criado para ter uma cultura em que ele necessitasse de reconhecimento pelo esforço. Então possivelmente ele se tornará aquele funcionário que sempre evidenciará, mesmo que sutilmente, que tal resultado gerou um esforço enorme por parte dele e por parte da equipe.

Se nós assistíssemos uma apresentação do Joãozinho para um cliente ou para seu chefe, provavelmente antes de apresentar os resultados, ele evidenciaria as dificuldades enfrentadas, as lições aprendidas, conflitos...

Levante a mão quem nunca conheceu uma pessoa assim! (eu levantei!)

Agora levante a mão quem nunca fez pelo menos uma vez isso! (... eu levantei!)

É errado querer ser conhecido pelo esforço? Claro que não.

Mas daí eu faço o inverso. Se coloque na posição de um cliente ou de seu chefe. Para você, interessa saber o quanto de esforço árduo a equipe dedicou ao projeto? Ou será mais interessante ver o resultado? Você, como chefe, aguentaria toda uma "contextualização" até chegar ao resultado de fato? E se você for um cliente cujo o tempo é o bem mais precioso?

O imediatismo em que o mundo se tornou (a necessidade de informações rápidas e de qualidade) agora preza por RESULTADOS. Você pode até evidenciar o seu esforço, mas faça isso em uma conversa informal... não em uma apresentação ao seu superior ou cliente.

E o Ricardão? Por nunca ter sido afetado muito pela cultura do esforço, provavelmente amadurecerá e com certeza terá muito mais chances de ser uma pessoa focada em resultados. E seus chefes o amarão por isso. Ele se tornará o porta-voz e elo principal da diretoria. Estou exagerando?

Enfim, infelizmente todos aqueles que estudaram na era "pré-internet" acabaram adquirindo (uns mais, outros menos) essa cultura do esforço, onde acabamos nos tornando dependentes deste reconhecimento por parte dos demais. É uma herança muito ruim que tivemos e que devemos lutar para mudar.

Mas e nos dias de hoje, se um aluno para obter dados sobre a Revolução Farroupilha? Digita www.google.com e toda informação estará ao seu dispôr.

Que tipo de perfil estaremos produzindo com isso? Não sou sociólogo, mas poderia apostar que o resultado será na cultura do EXCESSO de informação. Como a informação se tornará abundante, os alunos começarão a achar que o reconhecimento se dará pelo maior número de páginas.

Já imaginaram o inferno que será, se eles levarem isso para o mundo empresarial? Ao invés do tempo perdido para apresentar o esforço obtido, teremos dados redundantes e informações totalmente desnecessárias sendo transmitidas e gerando muito, mas muito ruido para quem está nos assistindo.

Ufa! Eu pensei nisso hoje e quis compartilhar com vocês. É um assunto que eu considero crítico (qualidade da informação), pois nós, como gerentes de projetos, trabalhamos em 90% do tempo com comunicação. E se utilizarmos este tempo com comunicação ineficaz?

E você? Já passou por alguma situação na "cultura do esforço"? Comente aí!

Grande abraço