quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

A cultura do esforço

Li um trecho no livro "Obrigado pela informação que você não me deu" que me fez pensar e reavaliar algumas atitudes não apenas minhas, mas das pessoas da minha volta, no meu trabalho.

Para ilustrar isso, vou contextualizar em uma fábula (baixou o Max Gehringer! hehe).

Anos 80.

Joãozinho era um rapaz muito estudioso no colégio. Daqueles que tirava 10 sempre. Mesmo quando não merecia. Ele dedicava pelo menos duas horas do seu precioso dia de criança para estudar, além das outra cinco horas de colégio que ele tinha.

Ricardão era o oposto de seu colega Joãozinho. Passava, é verdade, mas quase sempre em recuperação e com a nota mínima. Ia ao colégio (quando ia) e dedicava no máximo quinze minutos por semana para estudar.

Se o professor de história dava um trabalho para pesquisar sobre a Revolução Farroupilha, Joãozinho adorava pedir aos seus pais para levá-lo ao museu, gostava de ir até a biblioteca e, se conseguisse convencer, pedir para até um centro de tradições gaúchas para ouvir as histórias da revolução daqueles que tinham ancestrais envolvidos nas batalhas. Já o Ricardão possivelmente copiava metade do trabalho de um e inventava a outra metade. E entregava, meia-boca, mas entregava.

Se o professor de matemática dava um trabalho extenso sobre progressões aritméticas, Joãozinho varava as noites até resolver todas as questões. Não queria ir para a aula, se não tivesse finalizado o trabalho. Já o Ricardão, chutava os resultados daquelas questões que considerava mais complicada.

Quem vocês acham que possivelmente terá uma carreira mais bem sucedida, na era da informação em que se tornarão empregados?

É uma resposta discutível, mas eu posso garantir que o Ricardão teria mais sucesso.

Por quê?

Pensemos em nós, que estudamos na era pré-internet (quando eu sai do 3º ano a internet engatinhava!) o quanto era difícil obter essas informações de trabalhos. Ir para bibliotecas, pesquisar em enciclopédias, almanaques, etc. Quantas vezes nós não nos sentíamos necessitados em sermos recompensados pelo esforço que tivemos? E quantas vezes não fomos, de fato, recompensados por isso? Ou ninguém nunca ouvi de seu professor algo do tipo "pelo seu esforço, te darei uma nota 10!"?

De certa forma, o Joãozinho foi criado para ter uma cultura em que ele necessitasse de reconhecimento pelo esforço. Então possivelmente ele se tornará aquele funcionário que sempre evidenciará, mesmo que sutilmente, que tal resultado gerou um esforço enorme por parte dele e por parte da equipe.

Se nós assistíssemos uma apresentação do Joãozinho para um cliente ou para seu chefe, provavelmente antes de apresentar os resultados, ele evidenciaria as dificuldades enfrentadas, as lições aprendidas, conflitos...

Levante a mão quem nunca conheceu uma pessoa assim! (eu levantei!)

Agora levante a mão quem nunca fez pelo menos uma vez isso! (... eu levantei!)

É errado querer ser conhecido pelo esforço? Claro que não.

Mas daí eu faço o inverso. Se coloque na posição de um cliente ou de seu chefe. Para você, interessa saber o quanto de esforço árduo a equipe dedicou ao projeto? Ou será mais interessante ver o resultado? Você, como chefe, aguentaria toda uma "contextualização" até chegar ao resultado de fato? E se você for um cliente cujo o tempo é o bem mais precioso?

O imediatismo em que o mundo se tornou (a necessidade de informações rápidas e de qualidade) agora preza por RESULTADOS. Você pode até evidenciar o seu esforço, mas faça isso em uma conversa informal... não em uma apresentação ao seu superior ou cliente.

E o Ricardão? Por nunca ter sido afetado muito pela cultura do esforço, provavelmente amadurecerá e com certeza terá muito mais chances de ser uma pessoa focada em resultados. E seus chefes o amarão por isso. Ele se tornará o porta-voz e elo principal da diretoria. Estou exagerando?

Enfim, infelizmente todos aqueles que estudaram na era "pré-internet" acabaram adquirindo (uns mais, outros menos) essa cultura do esforço, onde acabamos nos tornando dependentes deste reconhecimento por parte dos demais. É uma herança muito ruim que tivemos e que devemos lutar para mudar.

Mas e nos dias de hoje, se um aluno para obter dados sobre a Revolução Farroupilha? Digita www.google.com e toda informação estará ao seu dispôr.

Que tipo de perfil estaremos produzindo com isso? Não sou sociólogo, mas poderia apostar que o resultado será na cultura do EXCESSO de informação. Como a informação se tornará abundante, os alunos começarão a achar que o reconhecimento se dará pelo maior número de páginas.

Já imaginaram o inferno que será, se eles levarem isso para o mundo empresarial? Ao invés do tempo perdido para apresentar o esforço obtido, teremos dados redundantes e informações totalmente desnecessárias sendo transmitidas e gerando muito, mas muito ruido para quem está nos assistindo.

Ufa! Eu pensei nisso hoje e quis compartilhar com vocês. É um assunto que eu considero crítico (qualidade da informação), pois nós, como gerentes de projetos, trabalhamos em 90% do tempo com comunicação. E se utilizarmos este tempo com comunicação ineficaz?

E você? Já passou por alguma situação na "cultura do esforço"? Comente aí!

Grande abraço

2 comentários:

Sandro Rodrigues disse...

Olá Flávio,

Apenas um comentário ... O Gilberto Dimmenstein (folha) já apresentou um estudo de que os bons alunos (cdf's) em geral não se tornam bons profissionais.

Por experiência própria, assumo que até o ginásio (é eu sou da época do primário/ginário/colégio, então 8ª série) eu era um cdf clássico, apesar de ficar no "fundão".

E sinceramente, não lembro de isto ter me ajudado muito na minha vida profissional.

Gabi Luz disse...

De fato sempre fui cdf até a 7ª e nunca "ganhei" nada com isso. Todos me odiavam, não tinha amigos, mas era praticamente a melhor da turma.Depois fui mudando, e hoje digo que o cdf tem que ser esperto, "ter jogo de cintura". Não pode se excluir do meio e muito menos excluir os Ricardões que pedem cola na hora da prova. Se as pessoas somente querem te usar, você deve fazer o mesmo com elas. E tratar como amigo, somente aqueles que te tratam assim também. Isso vale pra tudo, de colegas de trabalho aos chefes. Se seu chefe é daqueles que valorizam seu esforço, se esforce. Se não é, faça como o Ricardão.

http://gabiluz.blogspot.com/