quinta-feira, 22 de maio de 2008

O happy-hour



- Quase seis horas, pessoal! Qual vai ser o barzinho da vez?

Eram quinze para as seis, de uma sexta-feira na empresa de Ricardão e Joãozinho. Como em qualquer companhia, a contagem regressiva da última meia-hora de trabalho era feita em coro pelos funcionários. A noite agradável que se aproximava fazia com que a esticada para um barzinho fosse apenas uma conseqüência natural. O mais animado, como sempre, era o Hilário. Programador razoável, era um funcionário que era mantido mais pela alegria que trazia ao ambiente, do que pela sua produtividade (mediana).

- Eu voto pelo "Bacon'n'Eggs" de novo! ... Não querendo influenciar a opinião dos demais... - piscou o olho para seu colega ao lado.

Hilário cativava seus colegas. E logicamente que o local seria o "Bacon'n'Eggs", pois a opinião dele soava quase como uma ordem aos ouvidos dos outros. Todos estavam animados e agora contando os segundos para sairem. Para disfarçar, naquela tentativa ineficiente de se passar por trabalho, todos tratavam dos últimos detalhes via Messenger, num constante "alt+tab" entre planilhas e janelas de chat.

Ricardão, o gerente comunicativo, não havia sido chamado para este happy-hour. Ele observava tudo aquilo de longe e ficou incomodado. Sendo um líder que todos diziam apreciar, aquela animação e aquele apego da equipe pelo Hilário lhe fez sentir um pouco de inveja. "Por que eu, como líder, fiquei de fora?", pensou.

Entrando e saindo da sala de desenvolvimento, pelo menos 2 vezes nos últimos dez minutos na esperança de ser "lembrado", Ricardão notou que ninguém sequer havia cogitado a hipótese de convidá-lo. Joãozinho, o gerente técnico, o encontrou na passagem e logo notou a preocupação estampada no seu rosto.

- Problemas, meu amigo?
- Não... bem, sim. Digo, não.
- Ora, vamos lá, eu posso não ser um mestre em ler as pessoas como você, mas visivelmente você está incomodado. Me conte.

Caminharam até a sala do Ricardão e lá ambos se sentaram.

- Um happy-hour com a equipe, e eu não fui convidado.
- E... ?
- Como assim? Passamos uma semana longa, eu e a equipe. Foi um dos projetos mais divertidos e produtivos que tivemos. Eu esperava ser convidado para esse happy-hour!

Ricardão estava visivelmente abatido. Joãozinho nunca havia visto seu colega em tamanha frustração. Como lider comunicativo, Ricardão se sentia muito à vontade com suas equipes, pois estava sempre junto a elas, atuante. Aquele "não-convite" era uma faca nas suas costas. Joãozinho lançou uma pergunta:

- Ricardão, te entendo. Sei que tu se sente parte da equipe e que isso parece uma afronta contra sua autoridade. Sei que tu deves estar se questionando se eles realmente gostam de ti. Eu te pergunto: quantas vezes tu mesmo organizou alguma festa para eles?
- Ora, eu faço isso toda vez que finalizamos algum projeto. Ou mesmo quando fazemos algumas reuniões longas, procuro animar o local com comes e bebes.
- E nessas vezes, alguma vez vocês conversaram de assuntos sem ser trabalho?
- Bem, nas festas costumamos conversar. Mas lógico que é tudo um tanto superficial.
- Pois é, infelizmente temos que admitir que nós líderes somos superficiais com nossas equipes, por mais que tentemos ser profundos.
- Explique, Joãozinho. Não entendi.
- Eu sou um cara técnico e a tua presença me faz muito bem não só pelo lado pessoal mas como pelo lado profissional. Graças a ti, minha comunicação melhorou muito...

Joãozinho notou que os olhos de Ricardão fitavam pela janela da sua sala os funcionários saindo animados para o Happy-hour. Abanavam para os gerentes com animação, desejando um bom final de semana. Mas nenhum sinal de convite. Ricardão acenou constrangido, e perdeu suas últimas esperanças.

- Viu, só? Como posso ser um líder se minha equipe não me respeita ou não gosta da minha companhia?
- Ricardão, calma. Deixa eu continuar. Pelo visto tu estavas mais preocupado com o convite do que com o que eu iria te falar. Como eu disse, eu sou bastante técnico, sim. Mas aprendi muito contigo e consegui observar algumas atitudes suas neste projeto.
- E qual o veredicto, juiz? - Ricardão estava já impaciente.
- O veredicto é que eu jamais vi um líder tão dedicado a uma equipe, nessa empresa. Você comprou material para a equipe desenvolver o projeto do próprio bolso! Organizou reuniões com os chefes e clientes onde explicitou que a equipe era competente e demonstrou seu orgulho por liderá-los. Ricardão, tu desobstruiu todos os obstáculos que a equipe poderia ter. E ainda os tornou reconhecidos perante nossos chefes! Foste um líder perfeito!!
- Sim... e tudo isso para ...
- Calma! Como eu disse, nós somos superficiais. Note que tudo o que fizeste envolveu o trabalho. Por mais que tu tenhas conversado com eles, durante o projeto, duvido que foi algo pessoal e profundo. Por acaso, tu sabias que a mãe do Hilário estava no hospital durante o projeto?
- Nossa! Não sabia mesmo.
- Pois é, eu soube pelo chefe. Ele não quis lhe falar pois notou que o Hilário abstraiu bastante a situação. Mas veja como foste superficial. E isso não é uma crítica! Absolutamente. Eu realmente não consigo ver um chefe e um funcionário mantendo uma relação de amizade.
- Mas isso vai contra o que eu penso!!
- Exato, mas pense novamente. Se o Hilário fizesse algo de errado, de muito grave para a empresa, qual seria a sua situação? Se ele falasse mal dos chefes no happy-hour, qual seria sua reação?
- Hmmmm... eu gosto muito dele. Confesso que a amizade faria eu pôr "panos quentes" na situação.
- Pegaste o ponto-chave. Fazendo isso, tu achas que seria bom para a empresa? Tu não estarias sendo "cumplice"?
- Não concordo totalmente, mas acho que tu tens razão em parte.

Ricardão começou a entender que a liderança pela amizade, normalmente é um tiro no escuro. Os funcionários tendem a confundir o lado profissional com o pessoal nas empresas, tendo atitudes impensadas e indesejadas, principalmente os mais novos. Os mais velhos, em contrapartida, podem achar nisso algo que passe insegurança. Funcionários mais irresponsáveis, tendem a usar essa amizade para seu próprio benefício.

- Ricardão, estamos numa posição de chefes. Nós nunca vamos ser unanimidade, pois somos o "centro das atenções", no mínimo para nossos subordinados. Precisamos entender, e eu sei o como é difícil, que a amizade entre chefes e subordinados pode existir, mas deve ser tão clara quanto os limites que regem o lado pessoal do profissional.
- Sabe que eu estou te dando razão agora? Confesso que indo nesse happy-hour, um evento informal em que a equipe conversará menos sobre trabalho e mais sobre o lado pessoal, eu poderia até inibí-los... o que tornaria o happy-hour até numa extra-hour de trabalho.
- É, meu amigo. Os funcionários, por mais ligação que tenham com os chefes, sempre serão mais unidos. Mas tu podes ter certeza que eles te apreciam muito. Isso é visto no dia-a-dia. O simples "bom dia" já demonstra no rosto deles que eles estão felizes ao te ver. Eles sabem, de fato, que você está os auxiliando a crescerem na empresa.

Ricardão começou a compreender que Joãozinho, com todo seu foco técnico e pragmático, conseguiu ler algo que ele não havia percebido até então. Entender que a amizade profissional e a amizade pessoal são coisas realmente diferentes. Mesmo com o Joãozinho, amigo e colega dos tempos da escola, ele não tinha uma relação totalmente profunda. Não sabia coisas da vida dele, mas realmente isso nunca evitou que existisse total confiança entre os dois.

- Aliás, amigo. Te convido para um jogo de tênis. Deixa eles beberem. Vamos nós tirar o stress do corpo, pois foi uma semana dura.
- Não sabia que tu jogava tênis, Joãozinho!
- Agora sabes. Vamos?
- Lógico.

Enquanto saiam para o estacionamento, Joãozinho fez uma revelação surpreendente:

- Ricardão, o Hilário te colocou um apelido, sabias?
- Como assim?! Mas isso é uma total falta de respeito.
- Ele costuma te chamar de "O Cara", com 'c' maiúsculo.
- Poxa...

Joãozinho aproveitou o dia de emoções fortes do Ricardão, e aplicou um triplo 6x2 no seu colega. Enquanto isso, Hilário contava histórias do projeto e como "O Cara" resolveu problemas inerentes e defendeu a equipe na frente dos clientes e dos chefes. Aquela sexta-feira estava acabando e deixava muitas lições para todos eles. A correta dosagem de amizade entre equipe e seu chefe tornava o ambiente sadio na empresa. E era isso, afinal, o que realmente interessava.

Um comentário:

Guilherme Piccin disse...

Ótimo post, Flávio. Eu colocaria que muitas vezes a amizade entre chefes e subordinados pode até dar certo, mas muitas vezes também trazem um clima de desconforto.
Dois exemplos práticos:
- Um gerente da empresa que trabalho é muito amigo de um líder de projetos, a ponto de irem para casa de praia juntos, sempre almoçarem juntos e etc. Qual o reflexo disso? Os outros subordinados começaram a excluir o líder de seus almoços e evitam conversar sobre trabalho com ele, pois acreditam que sua relação com o gerente cria uma ponte de informações, que não é saudável quando estão falando mal do chefe. Se o chefe é amigo [ou não] de todo mundo da mesma forma, é incluído/excluído com unanimidade dos encontros informais.. mas se ele é amigo de uns poucos, esses acabam recebendo um olhar invejoso com ares de "favoritos do chefe".
- Um outro gerente da empresa, por outro lado, é muito amigo de todos da sua equipe [a equipe é "fechada", ninguém entra nem sai há algum tempo]. Frequentemente estão juntos fora do expediente, bebendo, jogando sinuca e fazendo churrasco [um deles acabou de bater com o carro do chefe, para se ter idéia]. Mais um detalhe: é uma das equipes mais produtivas da empresa, quiçá a mais.
Realmente é difícil achar o ponto de equilíbrio. Se de alguma forma a crônica reflete situações que você está vivendo, torço para que encontre esse equilíbrio.
Um abraço!